REFLETINDO SOBRE DISFORIAS

Lua Mota
5 min readJan 18, 2022

Essa reflexão diz respeito sobre minhas disforias como pessoa não-binária, e refletem apenas minha experiência, assim pode ou não ser similar as de outras pessoas trans.

Ontem eu estava conversando com minha namorada sobre comprar binder.

Minha maior disforia com relação ao meu corpo é com a região dos seios. E olha que eu não tenho muito, mas sempre, desde o inicio do meu desenvolvimento, essa foi uma região que me incomodou extremamente.

Lembro que conforme o volume aparecia na camiseta, principalmente a branca do colégio, e as pessoas começavam a olhar pra mim e se referirem a mim como uma “mocinha”, mais eu queria me esconder, mais eu queria me cobrir. No inicio pensava que eram os olhares que me incomodavam, até um tempo atrás eu pensei dessa forma, na verdade.

E de fato, sim, os olhares das pessoas em cima de crianças em desenvolvimento é algo tenso e pouco falado, sempre explorado como “o crescimento” e a “beleza do corpo humano se desenvolvendo”, mas é certo que quase todas as crianças tem alguma experiência, em maioria ruim, em como as pessoas olham, percebem e falam sobre nossos corpos nesse período.

Quando somos criades como “mulheres” somos o tempo todo objetificades. Falam o quanto nós “crescemos” olhando diretamente ao nosso quadril, as nossas pernas, a nossa cintura… e na maioria das vezes, para nossos seios. Quando somos criades como “homens”, o objeto é outro, grande parte das pessoas concentram os olhares nos nossos músculos, nossa “força”, nossa altura e principalmente nosso “volume" tentando presumir o tamanho de nossas genitálias, como se elas deitassem tudo que seremos na vida.

Isso fez com que eu me “desenvolvesse” escondendo todo meu corpo. Usei roupas largas, enormes e quentes durante toda a minha adolescência e até pouco tempo atrás. Meu cabelo mesmo, era enorme, e eu usava sempre na frente, cobrindo partes do meu rosto. Talvez isso fez com que eu criasse uma espécie de tolerância ao calor, pois estava sempre com blusas de frios, tentando cobrir tudo e hoje demoro bastante até sentir de fato calor.

Fotos, eram raríssimas. Odiava me olhar no espelho, odiava ver meu rosto e corpo em fotos. Tanto que isso é algo que realmente me pega muito até hoje, quase não tenho registros da minha adolescência pois sempre que via alguém prestes a tirar uma foto, eu me escondia, fugia, evitava de todas as formas aparecer.

Não queria que as pessoas olhassem pra mim. Eu queria que elas parassem de falar sobre meu corpo e o “quanto ele cresceu”. Queria que os comentários de parentes, principalmente as tias, sobre “Você precisa mostrar essa cintura, essas pernas…”, “Se veste igual um homem”, “Os meninos não vão olhar pra você nunca…” queria que todos parassem. Eu queria que meu corpo parasse. Sumisse.

Durante muito tempo tive em mente ter algum tipo de distúrbio alimentar, eu tinha certa consciência disso, pois eu “queria emagrecer” o tempo todo. Achava que se eu ficasse mais magra, meu corpo ia “sumir”. Li em vários lugares, aprendi nas aulas de ciências e biologia sobre o corpo “ser musculo e gordura”, sobre as regiões que estavam mais propensas a “absorver” a gordura, e que “se eu emagrece, perderia seios, quadril, bunda…”. Algo muito falado até hoje em programas e revistas “femininas”.

Esse era o pensamento constante na minha cabeça. Evitava comer muito, recusava comida que me ofereciam, cheguei a passar vontade muitas vezes. Lia sobre calorias o tempo inteiro e nessa época já era vegetariana (que não teve nada a ver com isso, foi literalmente pela causa, meus ideais e afins) então já era um pouco difícil conseguir manter uma dieta saudável (ainda mais a 10/8 anos atrás e sendo uma pessoa de baixa renda, sem muita informação). Tudo isso pra não ter o corpo que me cobravam e se desenvolvia.

Embaixo do monte de roupa que usava, evitava ao máximo usar coisas que me “prendesse”, roupas “baby look” nem pensar, sem regata, legging, calças coladas, shorts… E nessa também não usei sutiãs. Eu tive quatro sutiãs na vida. Dois tenho guardado no fundo da gaveta até hoje. Usei sutiãs em pouquíssimos momentos, que se me esforçar para pensar consigo colocar nos dedos de uma mão. Usar o sutiã na minha cabeça fazia com que “cedesse” ao que cobravam do meu corpo. Além disso os-odiava, eles aumentavam meu volume e “subiam” o que tinha.

Refletindo vejo que não usar sutiã fez com que eu criasse uma certa indiferença com essa região, mesmo existindo desconforto. Óbvio que no meu caso, já que tenho pouco seios, foi possível evitar o uso. Mas a indiferença me fez bem hoje. Colocar algo ali me faz lembrar que eles existem, me faz perceber o tamanho, peso, movimento… e agora eu entendo isso. Sem nada, eu esqueço.

Hoje já consigo lidar melhor com essa situação, com relação as roupas principalmente e o “esconder” do meu corpo. Minha expressão de gênero mudou bastante, já passei muito mal de calor pelo comportamento que tinha anteriormente e me privei de vários momento da vida também, até chegar uma hora que dei um basta, tentei observar o que me deixava confortável ao mesmo tempo o que eu tinha desejo de usar. E com certa liberdade financeira depois de começar a trabalhar fui me adaptando. Hoje até consigo usar croppeds e isso é uma vitória com relação ao compreendimento do meu corpo. Estudar e conhecer pessoas que eram de alguma forma similares a mim ajudou também, porque sempre achamos que estamos sozinhes diante de um problema, mas não estamos.

E definitivamente a coisa mais importante foi entender que essas questões e “problemas” que tinha e ainda enfrento são disforias com relação ao gênero me imposto no nascimento. São cobranças e expectativas que as pessoas nos colocam a partir do momento que assumem um gênero pra nós. E que um corpo é como uma casa que abriga e protege, que está tudo bem não ser a casa dos sonhos, que o mundo espera e almeja, porque ela continuará sendo sua pra sempre. Mesmo que não seja confortável a principio tenha em mente que você pode “modificá-la” posteriormente e deixa-la com “sua cara”. Assim fica um pouco mais fácil viver nela.

Mas, mesmo com todo esse trabalho mental, ainda é recorrente os desejos de que os seios não existam, por isso sei que tenho longo caminho a percorrer em buscam de um conforto maior comigo mesma.

E então, volto a questão do Binder. Acho que estou decidida a comprar um. Tive muita resistência com ele por todas essas questões que descrevi acima e também por questões com relação a saúde que o próprio uso continuo causa a depender do Binder, como é discutido por muitas pessoas trans. Porém me rendo a ideia de que consigo e quero comprar um.

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Lua Mota

Ativista Pansexual e demissexual, ilustradora, quadrinista e designer. Pessoa não-binária. https://linktr.ee/LuaMota